A Escola de Tradutores de Toledo e o que ela nos ensina sobre tradução hoje

 

Quando pensamos em tradução, é comum imaginar alguém sentado diante de um texto, passando palavras de uma língua para outra. Mas a história da tradução mostra que esse processo é muito mais complexo — e, muitas vezes, profundamente ligado a poder, cultura e educação.



Um dos episódios bem famoso da história da tradução é a chamada Escola de Tradutores de Toledo, na Espanha medieval. Mas você sabia que ela não era exatamente uma “escola” como conhecemos hoje?

Vamos entender melhor.

🏛 Toledo: um ponto de encontro de culturas

Na Idade Média, a cidade de Toledo era um lugar especial. Ali conviviam cristãos, muçulmanos e judeus, cada grupo com suas línguas, saberes e tradições.

Muitos textos científicos e filosóficos circulavam em árabe, especialmente obras de:

  • medicina

  • astronomia

  • matemática

  • filosofia grega preservada pelos árabes

Esses conhecimentos despertavam o interesse da Europa cristã. E foi aí que a tradução entrou em cena.

📚 A Escola de Toledo existiu mesmo?

O nome “Escola de Tradutores de Toledo” é famoso, mas os historiadores explicam que não existiu uma escola formal com salas, alunos e currículo.

O que existiu foi uma rede de tradução.

E como funcionava?

Muitas vezes, o processo era coletivo:

1️⃣ Uma pessoa que sabia árabe lia o texto.
2️⃣ Ela explicava oralmente em uma língua local.
3️⃣ Um clérigo registrava em latim.

Ou seja, havia oralidade, interpretação e escrita no mesmo processo.

Isso já nos mostra algo importante:

Tradução nunca foi apenas trocar palavras — sempre envolveu interpretação e escolhas.

👑 Afonso X, o “Rei Sábio”, e a virada linguística

No século XIII surge uma figura central nessa história: Afonso X, o Sábio, rei de Castela.

Ele teve uma visão inovadora para sua época:

Em vez de traduzir apenas para o latim (língua da Igreja e das universidades), ele incentivou traduções para o castelhano, a língua do povo.

Isso teve um impacto enorme:

✅ valorizou a língua vernácula
✅ ampliou o acesso ao conhecimento
✅ ajudou a construir identidade cultural
✅ fortaleceu a administração do reino

A tradução, nesse momento, virou também um projeto político e educacional.

🔎 Tradução é poder

A história de Toledo mostra algo que ainda é muito atual:

Quem decide o que será traduzido também decide que conhecimento vai circular.

Na época, traduzir textos de medicina ou astronomia não era neutro — significava trazer saber estratégico para dentro do reino.

Hoje, isso continua válido.


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